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13 de jun de 2012

Bichos ganham tratamentos de saúde caros



Considerada idosa aos 11 anos, a poodle Khiara vive bem após vencer um câncer de mama detectado e tratado graças aos recentes avanços da medicina veterinária. A doença começou com um pequeno nódulo, cresceu rápido e foi preciso retirar toda a glândula mamária. Para que o tumor não se espalhasse para outros órgãos, a cadelinha passou por cinco meses de quimioterapia.

O caso de Khiara é um exemplo de animais domésticos que se curaram de doenças até pouco tempo atrás fatais. Os gastos com diagnóstico, cirurgia e tratamento são altos, mas, para muitos donos que consideram seus "pets" verdadeiros membros da família, o custo-benefício é igualmente grande.

“A quimioterapia terminou há um ano e hoje ela está ótima, nem parece que teve câncer. Só caíram os pelos, mas nasceu tudo de novo”, conta a dona da poodle, a consultora comercial Carla Cardenuto, que ainda tem em casa um jabuti, uma coelha, uma papagaia, um peixe, dois canários e quatro periquitos.

Segundo a médica veterinária especializada em oncologia Gabriela Rodrigues, as drogas quimioterápicas aplicadas em animais são as mesmas usadas em humanos, só que em doses bem mais leves e com menos efeitos colaterais.

“A quimioterapia pode ser tanto injetável quanto oral e cada sessão custa de R$ 200 a R$ 400, de acordo com o tamanho e o peso do animal”, diz a veterinária. O tratamento inteiro pode incluir de quatro a oito sessões, com intervalos de duas a três semanas entre cada aplicação.

A área de diagnóstico por imagem também tem avançado na medicina veterinária. Nos últimos dois anos, cresceu muito o número de ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas feitas em cães e gatos, para detectar e prevenir doenças, afirmam os veterinários ouvidos pelo G1.

Isso tem permitido que os animais vivam em média 15 anos – quanto menor o porte, mais longa é a expectativa. A relação entre a idade humana e a canina ou felina oscila de três a cinco vezes mais que a dos homens. Ou seja, um cão de 11 anos tem entre 33 e 55 anos na nossa contagem, dependendo da raça.

Exames como ressonância e tomografia têm um custo médio de R$ 800, porque envolvem também anestesia geral – são raros os procedimentos em animais realizados em estado de total consciência, já que eles precisam ficar parados. Os aparelhos são os mesmos usados nos seres humanos, mas muitas vezes passam por adaptações.
Já as ultrassonografias têm sido oferecidas no meio veterinário há uma década. Na área cardiológica, por exemplo, servem para avaliar o fluxo sanguíneo, as variações da pressão arterial e a irrigação do coração e dos tecidos. Tudo isso é monitorado por meio de um "ecodopplercardiograma", um ultrassom colorido que dá um panorama geral do músculo cardíaco e sai por R$ 150 a R$ 200.

Além desse exame, já é possível realizar um cateterismo no animal com artérias obstruídas por gordura e colocar marcapasso para corrigir arritmias cardíacas. O primeiro custa cerca de R$ 5 mil e o segundo, de R$ 8 a R$ 10 mil.
“Esses procedimentos ajudam o animal a ter uma vida mais tranquila, confortável e com melhor qualidade. Um cão com 15 anos, se for bem tratado, pode viver mais um ano ou dois”, destaca o veterinário especializado na área de cardiologia pelo Instituto do Coração (Incor) Robinson Moreira.

O veterinário diz que o ideal é que um animal de até 7 anos faça pelo menos um check-up anual. A partir dessa idade, a frequência precisa ser semestral. Se tiver uma doença cardíaca comprovada, a ida a uma clínica deve ser trimestral.
Genética, idade, problemas renais ou infecciosos e até tártaro nos dentes podem afetar o coração. As raças também influenciam: boxers têm mais fragilidade cardíaca, enquanto poodles, malteses e outros cães pequenos apresentam mais deficiências em válvulas.

Com saúde na terceira idade
Aos 13 anos, o poodle Leonardo da Vinci é um idoso com regalias de filho único. Faz acupuntura contra dores na coluna provocadas por um bico de papagaio, só consome carne com baixo teor de proteína (como carneiro, coelho, rã e peixe) para não sobrecarregar os rins malformados e vai ao oftalmologista duas vezes por ano por causa de um envelhecimento na córnea, que resseca os olhos e demanda aplicação constante de lágrimas artificiais.
Os donos do cãozinho, a biomédica Rachel Chebabo e o administrador de empresas Ricardo Leuzzi, fazem uma avaliação médica completa nele duas vezes por ano. Isso porque Leo, como é chamado, também tem arritmia cardíaca, gases e agora uma dor de garganta. Para manter a saúde em dia, ele ainda toma um complexo vitamínico e já recebeu vacinas contra alergias.




Leo come carnes nobres, faz acupuntura e check-
ups para manter a saúde (Foto: Arquivo pessoal)
“Estamos prolongando a vida dele com qualidade e saúde, sem exageros ou intervenções. Quando papai do céu achar que é a hora dele, ele vai”, diz Leuzzi, que, assim como a mulher, leva Leo para todo canto. Entre passeios terrestres e aéreos, o poodle já viajou por todo o Brasil e conhece ainda Argentina, Uruguai e Paraguai.

“Ele já fez rafting em Bonito (MS), andou de maria-fumaça e fica sempre com a gente na cabine do avião”, conta o administrador. Ultimamente, por conta da idade avançada do cão, os donos não viajam mais para longe nem mudam os móveis de lugar em casa, para o animal não bater em algo ou se machucar por conta da baixa visão.
O gasto médio com Leo gira em torno de R$ 500 por mês, incluindo despesas com veterinário e pet shop. Entre as intervenções complexas que ele já fez está uma cirurgia aos 9 meses de idade para reconstruir três costelas quebradas após a mordida de uma labradora. Para não abrir os pontos, o cachorro não podia latir, e o casal “interditou” o andar em que mora para ninguém subir e causar uma reação inesperada.

O cãozinho também já foi “ressuscitado” depois de sofrer duas paradas cardíacas ao levar uma anestesia geral para limpar os dentes. A traqueia dele, que já é estreita, se fechou e o coração, sem oxigênio, parou de bater.
Esses procedimentos ajudam o animal a ter uma vida mais tranquila, confortável e com melhor qualidade"
Robinson Moreira,
veterinário




“Só submeto esse bichinho a uma nova cirurgia se for para salvar a vida dele. Também não vou deixá-lo sofrer nem ser egoísta a ponto de preservá-lo ao máximo. Se necessário, não descartamos a eutanásia”, afirma Rachel.
Cirurgia de catarata

Uma das cirurgias que mais avançaram e tiveram resultados satisfatórios na área da saúde animal é a que remove a catarata, doença que causa opacidade do cristalino dos olhos. O problema está geralmente associado à velhice e à diabetes, mas também pode ser genético e surgir em animais jovens, de 2 ou 3 anos.

De acordo com a veterinária especializada em oftalmologia Angélica Safatle, que cuida de Leo, raças de pequeno porte como poodle, lhasa apso, shih-tzu e yorkshire têm mais incidência de catarata por uma questão hereditária.

“A cirurgia é rápida, dura 30 minutos, mas é delicada, porque o animal precisa ser entubado”, explica a médica. Operações oftalmológicas em bichos de até 15 anos também são feitas em casos de traumas, tumores e pálpebras viradas para dentro.
O procedimento para retirar a catarata custa de R$ 2 mil a R$ 3 mil, mas tem um custo-benefício igualmente alto. O animal passa a andar mais rápido, cair menos e não bater em obstáculos. No pós-operatório, é preciso aplicar um colírio durante um mês. E o problema não corre o risco de voltar, segundo Angélica.

O gato siamês Milu completou 17 anos e só agora começa a dar sinais de velhice. Não são só os cães que vivem mais: os gatos também, e não por causa das hipotéticas seis vidas extras. Aos 17 anos, o siamês Milu é um idoso com diabetes totalmente sob controle. A dona e bióloga Célia Pavan aplica insulina no animal duas vezes por dia, pela manhã e no fim da tarde.

A doença foi descoberta há três anos, pois o gato estava urinando muito e bebendo mais água que o normal. Por conta disso, Milu mantém uma dieta especial, com ração própria para diabéticos e carpaccio de carne ou filé de peixe. Segundo Célia, ele também adora requeijão, queijo branco e leite condensado, mas atualmente está impossibilitado dessas regalias.

Só submeto esse bichinho a uma nova cirurgia se for para salvar a vida dele. (...) Se necessário, não descartamos a eutanásia"
Rachel Chebabo, biomédica

“Acho que é o comecinho do fim. Descobrimos uma pancreatite nele. Há uns dias, o Milu está com hipertensão e insuficiência renal”, cita a dona, que tem aplicado soro diariamente no bichano.

Por mês, Célia gasta com o animal de estimação cerca de R$ 300, o que inclui ração, areia e tapete para o xixi, cobertores e mantas. Nesse valor, também estão somadas as despesas do cãozinho Oliver, um lulu-da-pomerânia que é o xodó do marido dela.
“O Milu dorme na minha cama desde os 45 dias de vida. Agora ele merece todo o tratamento, conforto e bem-estar do mundo. Se a gente não cuidasse, ele já teria ido embora. O que puder fazer, dentro das minhas possibilidades, eu vou fazer”, diz Célia, que chama carinhosamente o gato de Gugu.


Para manter o controle dos gastos com os animais, alguns donos já optam por um plano de saúde. Há várias opções em todo o Brasil e muitas têm cobertura nacional.
Segundo a assessoria do plano Mister Saúde Animal, que atua em São Paulo há dez anos, a empresa oferece dois tipos de convênio: executivo e plus. O primeiro custa R$ 67 por mês e abrange 70% das necessidades do animal, como vacinas, exames e cirurgias simples. O segundo sai por R$ 96 mensais e inclui exames e cirurgias de alta complexidade, serviço de atendimento móvel e até unidade de terapia intensiva (UTI).

O Milu dorme na minha cama desde os 45 dias de vida. Agora ele merece todo o tratamento, conforto e bem-estar do mundo. Se a gente não cuidasse, ele já teria ido embora"

O valor independe da idade do paciente e é o mesmo para cães e gatos. Os dois planos também cobrem pré-natal e eventuais cesarianas, indicadas em caso de feto morto ou impossibilidade de parir, pelo tamanho ou pela posição dos filhotes.
Há apenas um pré-requisito: os bichos não podem ficar sem usar o plano. A cada 60 dias, os donos precisam comparecer a uma clínica credenciada para submeter o animal a, pelo menos, um exame clínico.

Apesar dos aparentes benefícios, donos e veterinários de clínicas particulares costumam ser contra o serviço, pois acham que ele não inclui tudo o que pode ser necessário e, principalmente, coloca à disposição apenas os profissionais da rede conveniada – o que impossibilita a escolha de um veterinário de preferência da família.

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